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Topos Uranos

Resumo

Esta aula delimita o objeto da lógica matemática: não a verdade dos enunciados particulares, que cabe a cada ciência, mas a forma dos raciocínios e a validade, isto é, a relação entre premissas e conclusão que garante que a verdade daquelas passa a esta. Define proposição, argumento, premissa, conclusão, forma e contraexemplo; distingue a validade da verdade com argumentos válidos de conclusão falsa e inválidos de conclusão verdadeira; mostra por que a linguagem natural, ambígua e capaz de falar de si mesma, não basta para estudar a validade com rigor, e estabelece a distinção entre linguagem-objeto e metalinguagem, que governa todo o curso. Expõe depois, com suas hipóteses explícitas e suas demonstrações, os paradoxos do mentiroso, de Berry e do barbeiro, e o de Russell, que o barbeiro antecipa, e explica como uma linguagem formal os evita ou os converte em teoremas. Termina com os quatro pilares da lógica matemática e com o mapa do curso.

Objetivos de aprendizagem

  1. Distinguir a validade de um argumento da verdade de suas premissas e de sua conclusão, e refutar uma forma inválida construindo um contraexemplo.
  2. Reconhecer ambiguidades da linguagem natural e precisar cada leitura de um enunciado ambíguo.
  3. Distinguir a linguagem-objeto da metalinguagem, e o uso de uma expressão de sua menção.
  4. Analisar um paradoxo: isolar suas hipóteses, deduzir a contradição e decidir que hipótese deve ser abandonada.

O que a lógica estuda

Todo conhecimento que não se obtém por observação direta se obtém raciocinando: de certas afirmações que se aceitam passa-se a outra que decorre delas. Em geometria, quem sabe que os ângulos de um triângulo somam dois retos conclui que nenhum triângulo tem dois ângulos obtusos; em medicina, quem sabe que certa doença produz febre, e que a pessoa examinada não a tem, descarta essa doença. A lógica é a disciplina que estuda quando essa passagem é legítima, e a lógica matemática é a que a estuda com os métodos da matemática: definindo com exatidão seus objetos, que são linguagens, fórmulas e deduções, e demonstrando teoremas sobre eles.

Para enunciar com precisão o que ela estuda, convém fixar primeiro o vocabulário. Uma proposição é uma sentença declarativa da qual faz sentido dizer que é verdadeira ou que é falsa: “77 é um número primo” é uma proposição verdadeira; “todo número par é maior que 55”, uma proposição falsa. Não são proposições, em contrapartida, as perguntas (“que horas são?”), as ordens (“feche a porta”) nem as expressões com variáveis livres, como “xx é par”, cujo valor depende do que xx designe.

Um argumento é uma lista de proposições, as premissas, junto com outra proposição, a conclusão, que se apresenta como consequência delas. As premissas podem ser quaisquer proposições: verdadeiras, falsas, conhecidas ou meras suposições; a única coisa que as distingue é o lugar que ocupam no argumento. Escreveremos os argumentos com as premissas em linhas sucessivas e a conclusão precedida de “portanto”:

ExemploUm argumento

Se um número é múltiplo de 44, é par. O número 2828 é múltiplo de 44. Portanto, 2828 é par.

Suas premissas são “se um número é múltiplo de 44, é par” e “2828 é múltiplo de 44”; sua conclusão, “2828 é par”.

A lógica não é uma teoria da verdade

Se isso é assim, a lógica não tem por ofício averiguar se as premissas de um argumento são verdadeiras. Se 2828 é múltiplo de 44, decide-o a aritmética; se uma pessoa tem febre, o termômetro; se uma batalha ocorreu em certo ano, a história. Tampouco lhe cabe definir o que é a verdade, questão que pertence à filosofia. A lógica admite que as proposições têm um valor de verdade, seja ele qual for, e estuda como esses valores se relacionam entre si: em particular, quando a verdade de umas proposições obriga à verdade de outra. Dito de outro modo, a lógica não é uma teoria da verdade, mas uma teoria da transmissão da verdade.

Ora, o que transmite a verdade não depende do tema do argumento, mas de sua estrutura. Compare-se o argumento anterior com este outro: “se um animal é um mamífero, respira ar; a baleia é um mamífero; portanto, a baleia respira ar”. Ambos têm a mesma forma: “se algo é AA, é BB; cc é AA; portanto, cc é BB”. A forma de um argumento é o que resta ao substituir seus termos não lógicos (números, animais, propriedades) por letras, conservando as palavras lógicas: “não”, “e”, “ou”, “se… então”, “todo”, “algum”. Cada argumento que se obtém de uma forma ao dar conteúdo a suas letras é uma instância dela.

Uma forma é válida quando nenhuma de suas instâncias tem todas as premissas verdadeiras e a conclusão falsa; um argumento é válido quando sua forma o é. Uma instância com premissas verdadeiras e conclusão falsa chama-se contraexemplo da forma: donde uma forma é inválida exatamente quando tem um contraexemplo.

Nas demonstrações desta aula usaremos uma taquigrafia do português: V(A)V(A) abrevia “AA é verdadeira” e F(A)F(A), “AA é falsa”; ¬\neg abrevia “não”, ∧\wedge abrevia “e”, ∨\vee abrevia “ou”, ⇒\Rightarrow abrevia “se… então” e ⇔\Leftrightarrow abrevia “se e somente se”; ∀\forall lê-se “para todo” e ∃\exists, “existe”. Esses signos são aqui meras abreviaturas de palavras da metalinguagem, e as setas duplas ficam reservadas em todo o curso para esse uso. Na aula seguinte aparecerão os signos de um só traço, →\rightarrow e ↔\leftrightarrow, junto com ¬\neg, ∧\wedge e ∨\vee, como abreviaturas de uma linguagem formal, com um sentido que o curso fixará com exatidão; a diferença de traço entre as setas lembrará em que nível se fala.

ProposiçãoO que a validade garante

Se um argumento é válido e todas as suas premissas são verdadeiras, sua conclusão é verdadeira. Em consequência, se um argumento válido tem conclusão falsa, alguma de suas premissas é falsa.

Demonstração

  1. V(A1)∧⋯∧V(An)\dato{p}{V(A_1) \wedge \cdots \wedge V(A_n)}

    Seja um argumento válido com premissas A1,…,AnA_1, \ldots, A_n e conclusão CC, e suponhamos que todas as premissas são verdadeiras.

  2. A1,…,An,C\resaltar{A_1, \ldots, A_n, C}

    Todo argumento é instância de sua própria forma: basta dar às letras da forma o conteúdo que tinham no argumento.

  3. ¬(V(A1)∧⋯∧V(An)∧¬V(C))\dato{v}{\neg\left( V(A_1) \wedge \cdots \wedge V(A_n) \wedge \resaltar{\neg V(C)} \right)}

    Pela definição de validade, nenhuma instância dessa forma tem as premissas verdadeiras e a conclusão falsa; em particular, não a tem o próprio argumento.

  4. V(C)\resaltar{V(C)}

    Como as premissas são verdadeiras, a única coisa que pode falhar na conjunção negada é a falsidade da conclusão: a conclusão é verdadeira.

  5. ¬V(C)⇒¬(V(A1)∧⋯∧V(An))\neg V(C) \Rightarrow \neg\left( V(A_1) \wedge \cdots \wedge V(A_n) \right)

    Se, pelo contrário, a conclusão é falsa, não podem ser verdadeiras todas as premissas, porque então a conclusão o seria.

A proposição diz o que a validade garante; convém ver com igual clareza o que ela não garante. Das oito combinações possíveis entre a validade do argumento, a verdade de todas as suas premissas e a verdade da sua conclusão, apenas uma fica excluída, a do argumento válido com premissas verdadeiras e conclusão falsa; as demais ocorrem todas.

ExemploVálido, com conclusão falsa

Todo número primo é ímpar. O número 22 é primo. Portanto, 22 é ímpar.

A forma é a mesma do primeiro argumento da aula, de modo que o argumento é válido; no entanto, sua conclusão é falsa. A proposição anterior indica onde está o defeito: alguma premissa é falsa, e de fato o é a primeira, porque 22 é primo e par. Um argumento válido não produz verdades; apenas conserva as que recebe.

ExemploInválido, com conclusão verdadeira

Se um número é múltiplo de 44, é par. O número 88 é par. Portanto, 88 é múltiplo de 44.

Premissas e conclusão são verdadeiras, e ainda assim o argumento é inválido. Sua forma, “se algo é AA, é BB; cc é BB; portanto, cc é AA”, tem um contraexemplo: com o número 66 no lugar do 88, as premissas continuam verdadeiras (“se um número é múltiplo de 44, é par”; “66 é par”) e a conclusão, “66 é múltiplo de 44”, é falsa. A verdade da conclusão original não procede das premissas, mas da aritmética: 8=4⋅28 = 4 \cdot 2. Essa forma inválida, frequente no raciocínio cotidiano, chama-se afirmação do consequente.

Disso decorre a regra prática que a aula exercitará: para mostrar que um argumento é inválido não basta apontar que alguma premissa ou a conclusão é falsa, e para mostrar que é válido não basta que tudo nele seja verdadeiro; o primeiro exige exibir um contraexemplo de sua forma, e o segundo, um raciocínio que valha para todas as instâncias.

Linguagem natural e linguagem formal

A definição de validade repousa sobre duas operações: reconhecer a forma de um argumento e decidir se uma proposição é verdadeira ou falsa. Ambas supõem que cada sentença tem uma só leitura. A linguagem natural, o português, o chinês ou o árabe, que os seres humanos aprendem sem instrução formal e usam para se comunicar, não cumpre essa condição: sua flexibilidade, que a torna apta para a poesia, a conversa e a nuance, torna-a também ambígua.

  • Ambiguidade lexical: uma palavra tem vários significados. “Sentei no banco” pode referir-se a um assento ou a uma instituição financeira.
  • Ambiguidade sintática: uma sentença admite várias estruturas. “O dobro de três mais quatro” pode ser 2⋅3+4=102 \cdot 3 + 4 = 10 ou 2⋅(3+4)=142 \cdot (3 + 4) = 14.
  • Ambiguidade de escopo: não se sabe a que parte da sentença uma palavra lógica afeta. “Todos os alunos não passaram” pode significar que nenhum passou ou que nem todos passaram.
  • Conectivos imprecisos: o “ou” umas vezes admite que ambas as alternativas se cumpram (“exige-se diploma ou experiência”) e outras o exclui (“café ou chá”); o “se… então” umas vezes expressa causa, outras uma regra, outras uma mera sucessão.

À ambiguidade soma-se um traço mais profundo: a linguagem natural pode falar de si mesma. Contém as palavras “sentença”, “verdadeiro” e “definir”, e com elas pode formar sentenças que se referem a si mesmas, como “esta sentença tem cinco palavras”. Essa autorreferência é, em geral, inofensiva; mas, como se verá, combinada com a noção de verdade produz sentenças que não podem ser nem verdadeiras nem falsas.

Uma linguagem formal é projetada para eliminar ambas as fontes de dificuldade. Fixa-se um alfabeto, uma coleção de símbolos, e algumas regras de formação que dizem, sem deixar margem a interpretação, que sequências de símbolos são expressões bem formadas; o significado de cada expressão fixa-se depois mediante definições igualmente precisas. Assim, perguntar se uma sequência de símbolos pertence à linguagem é uma questão que se resolve mecanicamente, verificando regras, e cada expressão se lê de uma só maneira. A linguagem deste curso, que a aula sobre a linguagem da lógica proposicional constrói, tem um alfabeto de apenas dois símbolos, o círculo ∘\sigO e o disco ∙\sigI, e uma única regra de formação.

O preço é a flexibilidade: uma linguagem formal não serve para conversar, e cada linguagem formal expressa apenas o que suas regras permitem. Não é verdade, porém, que se sacrifique todo o poder expressivo: as linguagens formais da lógica de primeira ordem bastam para escrever quase toda a matemática. O que se sacrifica é a ambiguidade e a autorreferência descontrolada; o que se ganha é a possibilidade de demonstrar teoremas sobre a própria linguagem.

Linguagem-objeto e metalinguagem

Para estudar uma linguagem é preciso falar dela, e para falar dela é necessária outra linguagem. A linguagem-objeto é a linguagem que se estuda; a metalinguagem é a linguagem em que ela é estudada. Numa gramática latina escrita em português, o latim é a linguagem-objeto e o português a metalinguagem. Neste curso, a linguagem-objeto será a linguagem formal de círculos e discos, e a metalinguagem será o português, enriquecido com signos matemáticos e com letras gregas, φ\varphi, ψ\psi, que designarão fórmulas quaisquer da linguagem-objeto sem pertencer a ela.

A distinção é central por uma razão precisa: as afirmações que o curso demonstrará sobre a linguagem formal (que toda fórmula se lê de uma só maneira, que tudo o que é dedutível é verdadeiro) não são fórmulas da linguagem formal, mas sentenças da metalinguagem. Por isso se chamarão metateoremas, para distingui-las dos teoremas que o sistema dedutivo produz dentro da linguagem-objeto.

Uma forma elementar da distinção é a que separa o uso de uma expressão de sua menção. Em “Roma é uma cidade” usa-se a palavra para falar da cidade; em “‘Roma’ tem quatro letras” menciona-se a palavra, e as aspas o indicam: a sentença fala da palavra, não da cidade. Confundir ambas as coisas produz enunciados absurdos, como “Roma tem quatro letras”, ou argumentos falaciosos, como “Roma é uma cidade; ‘Roma’ é uma palavra de quatro letras; portanto, uma cidade é uma palavra de quatro letras”.

ExemploTrês níveis

Tomemos como linguagem-objeto o latim. A sentença “Roma aeterna est” pertence à linguagem-objeto. A sentença “‘Roma aeterna est’ tem três palavras” pertence à metalinguagem, o português, e é verdadeira. A sentença “a sentença anterior está escrita em português” fala de uma sentença da metalinguagem: pertence a um terceiro nível, a metalinguagem da metalinguagem, embora esteja escrita na mesma língua. Nada impede que uma mesma língua sirva em vários níveis; o que importa é não perder de vista de que se fala.

Os paradoxos da linguagem

Uma contradição é uma afirmação junto com sua negação, como V(A)∧¬V(A)V(A) \wedge \neg V(A). Um paradoxo é um raciocínio que, partindo de hipóteses que parecem aceitáveis e avançando por passos que parecem válidos, chega a uma contradição. Pela proposição sobre o que a validade garante, se os passos são de fato válidos, alguma hipótese é falsa: resolver um paradoxo consiste em encontrar qual. Convém não confundir o paradoxo com a ambiguidade, que é apenas a multiplicidade de leituras, nem com o meramente surpreendente.

O mentiroso

O paradoxo mais antigo desse gênero é atribuído a Eubulides de Mileto, no século IV antes da nossa era. Em sua forma precisa não fala de mentir, que supõe a intenção de enganar, mas de falsidade: seja mm a sentença “a sentença mm é falsa”. Para obter a contradição bastam duas hipóteses, que convém escrever explicitamente.

  • Bivalência (B): toda proposição é verdadeira ou falsa, e não ambas as coisas; ser falsa equivale a não ser verdadeira.
  • Esquema da verdade (T): uma sentença é verdadeira se e somente se o que ela diz é o caso. Por exemplo, “a neve é branca” é verdadeira se e somente se a neve é branca.
TeoremaO paradoxo do mentiroso

As hipóteses de bivalência e do esquema da verdade, aplicadas à sentença mm, conduzem a uma contradição: não há maneira de atribuir a mm um valor de verdade que as respeite. Na figura, a sentença mm aponta para si mesma, e as setas percorrem as duas possibilidades.

Demonstração

  1. F(m)⇔¬V(m)\dato{B}{F(m) \Leftrightarrow \neg V(m)}

    Pela bivalência, mm é verdadeira ou falsa, e não ambas: ser falsa é não ser verdadeira.

  2. V(m)⇔F(m)\dato{T}{V(m) \Leftrightarrow \resaltar{F(m)}}

    O que mm diz é que mm é falsa. Pelo esquema da verdade, mm é verdadeira exatamente quando o que ela diz é o caso.

  3. V(m)⇔¬V(m)V(m) \Leftrightarrow \resaltar{\neg V(m)}

    Ao encadear ambas as equivalências, a verdade de mm equivale à sua própria negação.

  4. V(m)⇒¬V(m),¬V(m)V(m) \Rightarrow \neg V(m), \quad \resaltar{\neg V(m)}

    Se mm fosse verdadeira, pela equivalência lida da esquerda para a direita não o seria: a suposição refuta-se a si mesma, e mm não é verdadeira.

  5. V(m)∧¬V(m)\resaltar{V(m) \wedge \neg V(m)}

    Mas então, pela equivalência lida da direita para a esquerda, mm é verdadeira: têm-se ao mesmo tempo uma afirmação e sua negação.

O teorema não diz que a lógica seja contraditória, mas que as duas hipóteses não podem sustentar-se ao mesmo tempo para uma linguagem que contém a sentença mm. Há, portanto, três saídas: abandonar a bivalência e admitir sentenças sem valor de verdade; restringir o esquema da verdade; ou impedir que a linguagem forme a sentença mm. A terceira é a de Alfred Tarski, em 1933: o predicado “é verdadeira” de uma linguagem não pertence a essa linguagem, mas à sua metalinguagem. Numa linguagem assim, mm não é uma sentença bem formada, e o paradoxo não pode ser enunciado.

O paradoxo de Berry

Publicado por Bertrand Russell em 1906, que o atribuiu a George Berry, bibliotecário de Oxford, esse paradoxo não usa a palavra “verdadeiro”, mas a palavra “definir”. Diz-se que uma frase do português define um número natural quando o descreve de modo que se possa identificá-lo sem ambiguidade: “o menor número primo maior que dez” define o 1111. Consideremos a frase “o menor natural que não pode ser definido com menos de vinte palavras”, que deve ser lida tal como está escrita, e chamemos bb o número que ela pretende definir. Os números naturais, neste curso, são 1,2,3,…1, 2, 3, \ldots

TeoremaO paradoxo de Berry

Se o vocabulário do português é finito e a relação “a frase define o número” está bem determinada, chega-se a uma contradição: o número bb existe e, ao mesmo tempo, pode e não pode ser definido com menos de vinte palavras. Na figura, as frases curtas são enviadas aos números que definem, que são poucos; o primeiro número que fica livre é bb.

Demonstração

  1. N≤k+k2+⋯+k19\dato{N}{N \leq k + k^2 + \cdots + k^{19}}

    Seja kk o número de palavras do dicionário. As frases de uma palavra são no máximo kk; as de duas, no máximo k2k^2; e assim até as de dezenove. As frases de menos de vinte palavras são, portanto, um número finito NN.

  2. D={d1,…,dr},r≤N\dato{D}{D = \{ d_1, \ldots, d_r \}, \quad r \leq N}

    Cada frase define no máximo um número. Seja DD o conjunto dos naturais que alguma frase de menos de vinte palavras define: tem no máximo NN elementos.

  3. (∃n≤N+1) (n∉D),b∉D(\exists n \leq N + 1)\,(n \notin D), \quad \resaltar{b \notin D}

    Entre os N+1N + 1 números 1,2,…,N+11, 2, \ldots, N + 1 há algum que não está em DD. Percorrendo-os em ordem, o primeiro que não está em DD é o menor natural que não pode ser definido com menos de vinte palavras: todos os anteriores estão em DD.

  4. 13<20,b∈D13 < 20, \quad \resaltar{b \in D}

    Mas a frase “o menor natural que não pode ser definido com menos de vinte palavras” tem treze palavras, e define precisamente bb.

  5. b∈D∧b∉D\resaltar{b \in D \wedge b \notin D}

    Têm-se ao mesmo tempo uma afirmação e sua negação.

A exposição corrente, que se limita a observar que a frase tem menos de vinte palavras, omite metade do argumento: que o número bb existe, o que exige a finitude do vocabulário e a escolha do primeiro que falta. A hipótese que falha é a segunda: “definir” não é uma relação precisa do português, porque a frase que define bb usa a própria palavra “definir”, e seu sentido depende de quais frases contam como definições. Numa linguagem formal LL pode-se precisar o que significa “definível em LL”, mas essa noção só se expressa na metalinguagem; a frase que define bb não pertence a LL, e a contradição desaparece: bb não é definível em LL com poucos símbolos, embora o seja na metalinguagem.

O barbeiro e o conjunto de Russell

O paradoxo do barbeiro costuma ser contado assim: numa aldeia há um barbeiro, homem da aldeia, que barbeia todos os homens da aldeia que não se barbeiam a si mesmos, e somente a eles. O barbeiro barbeia a si mesmo? As palavras “e somente a eles” são essenciais: um barbeiro que barbeasse todos os que não se barbeiam a si mesmos, sem a restrição, poderia barbear também a si mesmo sem contradição alguma. O paradoxo é um caso particular de um lema geral, de forma diagonal, que convém demonstrar uma única vez.

LemaO lema diagonal

Seja DD uma coleção de objetos e RR uma relação entre eles, de modo que, para cada par xx, yy de objetos de DD, a afirmação R(x,y)R(x, y) é verdadeira ou falsa. Então não existe nenhum objeto bb de DD tal que, para todo xx de DD, se cumpra R(b,x)R(b, x) se e somente se não se cumpre R(x,x)R(x, x). Na figura, cada linha é um objeto xx e cada coluna um objeto yy, e uma casa está preenchida quando R(x,y)R(x, y) se cumpre; a linha que buscamos para bb deveria inverter a diagonal, e por isso difere de cada linha na casa diagonal desta.

Demonstração

  1. (∀x∈D) (R(b,x)⇔¬R(x,x))\dato{b}{(\forall x \in D)\,\left( R(b, x) \Leftrightarrow \neg R(x, x) \right)}

    Suponhamos que existe um tal bb em DD.

  2. R(b,b)⇔¬R(b,b)R(b, \resaltar{b}) \Leftrightarrow \neg R(\resaltar{b}, \resaltar{b})

    A condição vale para todo xx de DD, e bb é um deles: podemos tomar x=bx = b.

  3. R(b,b)⇒¬R(b,b)R(b, b) \Rightarrow \resaltar{\neg R(b, b)}

    Se R(b,b)R(b, b) se cumpre, pela equivalência não se cumpre: contradição.

  4. ¬R(b,b)⇒R(b,b)\neg R(b, b) \Rightarrow \resaltar{R(b, b)}

    Se R(b,b)R(b, b) não se cumpre, pela equivalência se cumpre: contradição também.

  5. ¬(∃b∈D) (∀x∈D) (R(b,x)⇔¬R(x,x))\neg (\exists b \in D)\,(\forall x \in D)\,\left( R(b, x) \Leftrightarrow \neg R(x, x) \right)

    Como um dos dois casos deve dar-se, a suposição é insustentável: não existe tal bb.

CorolárioO barbeiro não existe

Em nenhuma aldeia há um homem da aldeia que barbeie todos os homens da aldeia que não se barbeiam a si mesmos, e somente a eles.

Demonstração

  1. (∀x∈D) (R(b,x)⇔¬R(x,x))(\forall x \in D)\,\left( R(b, x) \Leftrightarrow \neg R(x, x) \right)

    Seja DD a coleção dos homens da aldeia e R(x,y)R(x, y) a relação “xx barbeia yy”. O barbeiro bb é um homem da aldeia, de modo que está em DD; que seja um barbeiro como o descrito significa que barbeia cada homem da aldeia exatamente quando esse homem não se barbeia a si mesmo.

  2. ¬(∃b∈D) (∀x∈D) (R(b,x)⇔¬R(x,x))\resaltar{\neg (\exists b \in D)}\,(\forall x \in D)\,\left( R(b, x) \Leftrightarrow \neg R(x, x) \right)

    Pelo lema diagonal, nenhum homem da aldeia cumpre essa condição: o barbeiro descrito não existe. A história não é um paradoxo, mas a demonstração de que seu protagonista é impossível.

A conclusão do barbeiro é inofensiva: ninguém havia afirmado que tal barbeiro existisse. O mesmo não ocorre com sua versão na teoria dos conjuntos. Em 1902, Russell escreveu a Gottlob Frege que seu sistema, que pretendia fundar a aritmética na lógica, admitia o seguinte princípio de compreensão: para toda propriedade há um conjunto cujos elementos são exatamente os objetos que a têm. Aplicado à propriedade de não pertencer a si mesmo, o princípio afirma que existe o conjunto

Z={x:x∉x}Z = \{ x : x \notin x \}
CorolárioO paradoxo de Russell

O princípio de compreensão, sem restrições, é contraditório.

Demonstração

  1. (∀x∈D) (x∈Z⇔x∉x)\dato{Z}{(\forall x \in D)\,\left( x \in Z \Leftrightarrow x \notin x \right)}

    Seja DD a coleção de todos os conjuntos e R(x,y)R(x, y) a relação “yy pertence a xx”. O princípio de compreensão, aplicado à propriedade x∉xx \notin x, afirma que existe um conjunto ZZ cujos elementos são os conjuntos que não pertencem a si mesmos.

  2. (∀x∈D) (R(Z,x)⇔¬R(x,x))(\forall x \in D)\,\left( \resaltar{R(Z, x)} \Leftrightarrow \resaltar{\neg R(x, x)} \right)

    Com a relação escolhida, a condição de ZZ é exatamente a do lema diagonal, com ZZ no lugar de bb: x∈Zx \in Z é R(Z,x)R(Z, x), e x∉xx \notin x é ¬R(x,x)\neg R(x, x).

  3. Z∈Z⇔Z∉Z\resaltar{Z \in Z \Leftrightarrow Z \notin Z}

    O conjunto ZZ é um conjunto, de modo que está em DD; pelo lema diagonal, tal ZZ não existe, e tomando x=Zx = Z obtém-se a equivalência impossível. Mas o princípio afirma que existe. O princípio implica, portanto, uma contradição.

Diferentemente do barbeiro, aqui a existência de ZZ não era uma suposição de um relato, mas um princípio da teoria. O paradoxo de Russell não se resolve declarando que ZZ não existe, mas reformando a teoria: a teoria axiomática dos conjuntos de Zermelo, de 1908, só permite formar, com uma propriedade, subconjuntos de um conjunto já dado, e com essa restrição a contradição não se deduz.

O que não é um paradoxo

Chamou-se às vezes “paradoxo do conjunto vazio” à observação de que o conjunto vazio existe embora não tenha elementos, como se um objeto existente devesse ser feito de objetos existentes. Não há nisso contradição alguma: um conjunto não é feito de seus elementos como um muro de seus tijolos, mas fica determinado por eles, e a coleção dos elementos de um conjunto pode não ter nenhum, assim como uma caixa vazia continua sendo uma caixa. Que um fato surpreenda não o torna paradoxal; o paradoxo exige deduzir uma contradição, e aqui não se deduz nenhuma.

Como uma linguagem formal os trata

Do exposto decorre que uma linguagem formal não evita os paradoxos por arte de mágica, mas de duas maneiras precisas. A primeira é que ela pode carecer dos recursos que os produzem. A linguagem da lógica proposicional, que este curso constrói, não tem sentenças que se refiram a si mesmas nem um predicado de verdade: nela não se pode escrever a sentença do mentiroso, e sua semântica atribui a cada fórmula, em cada atribuição de valores às variáveis, um único valor de verdade. A segunda é que, em linguagens mais ricas, o paradoxo se converte em teorema: o raciocínio do mentiroso, feito com rigor, demonstra que a verdade de uma linguagem suficientemente expressiva não é definível nessa mesma linguagem (Tarski); o do barbeiro e de Russell demonstra que certas coleções não são conjuntos; e argumentos aparentados com o de Berry estão no coração dos teoremas de incompletude de Kurt Gödel, de 1931. Assim, o que na linguagem natural é uma perplexidade, numa linguagem formal é informação.

Os quatro pilares da lógica matemática

A lógica matemática nasceu no fim do século XIX e no começo do XX, com Frege, Peano, Russell e David Hilbert, como resposta a uma pergunta precisa: sobre que fundamentos repousa a matemática e se esses fundamentos estão livres de contradição. Hoje ela é dividida em quatro grandes ramos, que se entrelaçam constantemente.

  • Teoria da prova: estuda as demonstrações formais como objetos matemáticos, isto é, como sequências finitas de fórmulas que seguem regras explícitas; pergunta o que pode ser demonstrado num sistema, se um sistema é consistente e como umas demonstrações se transformam em outras. A unidade de dedução deste curso é um primeiro contato com ela.
  • Teoria dos modelos: estuda a relação entre uma linguagem formal e as estruturas que a interpretam, seus modelos; pergunta que estruturas satisfazem um conjunto de fórmulas e que propriedades das estruturas podem ser expressas numa linguagem dada. A unidade de semântica, com suas atribuições de valores de verdade, é sua versão mais elementar.
  • Teoria dos conjuntos: estuda os conjuntos com axiomas precisos, como a de Zermelo e Fraenkel, na qual pode ser escrita quase toda a matemática; nasceu, em boa parte, da necessidade de evitar o paradoxo de Russell.
  • Teoria da computabilidade: estuda que problemas podem ser resolvidos mediante um procedimento mecânico e quais não. A lógica proposicional é decidível, como o curso verá: existe um procedimento que decide num número finito de passos se uma fórmula é válida; a lógica de predicados, em contrapartida, não o é.

Nenhum pilar se estuda em profundidade sem tocar os demais: a completude, resultado central deste curso, é ao mesmo tempo um teorema da teoria da prova e da teoria dos modelos, e a decidibilidade que dela se obtém pertence à computabilidade.

O mapa do curso

O curso percorre, para a linguagem mais simples da lógica, a proposicional, o caminho completo de uma teoria lógica, em quatro unidades.

  1. Linguagem: a sintaxe. Constrói-se a linguagem-objeto com seu alfabeto de dois símbolos e sua regra de formação, demonstra-se que cada fórmula se lê de uma só maneira, aprende-se a demonstrar por indução e traduzem-se para a linguagem formal enunciados e argumentos da linguagem natural, apontando o que a tradução conserva e o que perde.
  2. Dedução: fixa-se um sistema de axiomas e de regras de inferência, e define-se o que significa que uma fórmula φ\varphi se deduza de um conjunto de fórmulas Γ\Gamma, o que se escreve Γ⊢φ\Gamma \vdash \varphi. É a face sintática da validade: manipular símbolos segundo regras, sem atender a seu significado.
  3. Semântica: atribui-se a cada fórmula um valor de verdade em cada atribuição, e define-se o que significa que φ\varphi seja consequência de Γ\Gamma, o que se escreve Γ⊨φ\Gamma \models \varphi: toda atribuição que torna verdadeiras as fórmulas de Γ\Gamma torna verdadeira φ\varphi. É a face semântica da validade, a definição desta aula tornada precisa.
  4. Metateoria: demonstra-se que ambas as faces coincidem. A correção diz que tudo o que é dedutível é consequência, e a completude, que toda consequência é dedutível. Estudam-se depois a compacidade e um método mecânico, a resolução, para decidir se um conjunto de fórmulas pode ser satisfeito.

Se isso é assim, o curso é o primeiro exemplo completo de uma teoria matemática cujo objeto é o próprio raciocínio; e todas as suas afirmações sobre a linguagem formal serão, como se viu nesta aula, sentenças da metalinguagem demonstradas com o rigor da matemática.

Problemas resolvidos

Os problemas seguintes exercitam, em dificuldade crescente, as distinções da aula: refutar um argumento cujas sentenças são todas verdadeiras, separar as leituras de um enunciado ambíguo, classificar expressões da linguagem-objeto e da metalinguagem, e analisar dois raciocínios de aparência paradoxal para decidir se o são.

Problema resolvido 1Tudo verdadeiro, e ainda assim inválido

Mostrar que o seguinte argumento é inválido, embora suas premissas e sua conclusão sejam verdadeiras: “todo múltiplo de 66 é par; o número 1212 é par; portanto, 1212 é múltiplo de 66”.

Solução

  1. (∀x) (S(x)⇒P(x)),P(12),S(12)(\forall x)\,(S(x) \Rightarrow P(x)), \quad P(12), \quad S(12)

    Abreviamos “xx é múltiplo de 66” por S(x)S(x) e “xx é par” por P(x)P(x). As premissas e a conclusão são verdadeiras, porque 12=6⋅212 = 6 \cdot 2.

  2. (∀x) (S(x)⇒P(x)),P(c),S(c)(\forall x)\,(S(x) \Rightarrow P(x)), \quad P(\resaltar{c}), \quad S(\resaltar{c})

    A forma obtém-se substituindo o nome 1212 por uma letra cc: duas premissas e uma conclusão.

  3. (∀x) (S(x)⇒P(x)),P(4)(\forall x)\,(S(x) \Rightarrow P(x)), \quad P(\resaltar{4})

    Buscamos uma instância com premissas verdadeiras: a primeira não depende de cc, e a segunda pede um número par. Tomamos c=4c = 4.

  4. ¬S(4)\neg S(\resaltar{4})

    A conclusão dessa instância é falsa, porque 44 não é múltiplo de 66.

  5. 12=6⋅2\resaltar{12 = 6 \cdot 2}

    A forma tem um contraexemplo: é inválida, e o argumento também. A verdade de sua conclusão procede da aritmética, não das premissas.

Problema resolvido 2Uma ambiguidade de escopo

Seja LL a lista de números 44, 66, 77. Mostrar que a sentença “todos os números de LL não são primos” tem duas leituras, e que com essa lista uma é verdadeira e a outra falsa.

Solução

  1. ¬Q(4)∧¬Q(6)∧¬Q(7)\dato{a}{\neg Q(4) \wedge \neg Q(6) \wedge \neg Q(7)}

    Abreviamos “xx é primo” por Q(x)Q(x). Primeira leitura: a negação afeta cada número, e a sentença diz que nenhum é primo.

  2. ¬(Q(4)∧Q(6)∧Q(7))\dato{n}{\neg\left( Q(4) \wedge Q(6) \wedge Q(7) \right)}

    Segunda leitura: a negação afeta a afirmação inteira, e a sentença diz que nem todos são primos.

  3. Q(7),¬(¬Q(4)∧¬Q(6)∧¬Q(7))Q(7), \quad \neg\left( \neg Q(4) \wedge \neg Q(6) \wedge \resaltar{\neg Q(7)} \right)

    Como 77 é primo, o último termo da primeira leitura é falso, e com ele a conjunção inteira: a primeira leitura é falsa.

  4. ¬Q(4),¬(Q(4)∧Q(6)∧Q(7))\neg Q(4), \quad \neg\left( \resaltar{Q(4)} \wedge Q(6) \wedge Q(7) \right)

    Como 44 não é primo, a conjunção da segunda leitura é falsa, e sua negação verdadeira: a segunda leitura é verdadeira.

  5. ¬Q(4)∧¬Q(6)∧¬Q(7)⇒¬(Q(4)∧Q(6)∧Q(7))\resaltar{\neg Q(4) \wedge \neg Q(6) \wedge \neg Q(7)} \Rightarrow \neg\left( Q(4) \wedge Q(6) \wedge Q(7) \right)

    As duas leituras não são equivalentes: a primeira implica a segunda, mas não o inverso, e essa lista o mostra. Em matemática, a segunda se escreve “nem todos os números de LL são primos”, e a primeira, “nenhum número de LL é primo”.

Problema resolvido 3Linguagem-objeto e metalinguagem

Tomemos como linguagem-objeto as sequências dos símbolos ∘\sigO e ∙\sigI, e como metalinguagem o português, com letras gregas que designam sequências quaisquer. Classificar cada uma das seguintes expressões e decidir, quando couber, se é verdadeira: (a) ∘∘∙\sigO\sigO\sigI; (b) “∘∘∙\sigO\sigO\sigI tem três símbolos”; (c) “para toda sequência φ\varphi, a sequência ∙φ\sigI\varphi começa com um disco”; (d) “∘∘∙\sigO\sigO\sigI é verdadeira”.

Solução

  1. ∘∘∙\resaltar{\sigO\sigO\sigI}

    A expressão (a) pertence à linguagem-objeto: é uma sequência de símbolos, não uma sentença do português, e não é verdadeira nem falsa; dela se fala, mas ela não afirma nada.

  2. ∘  ∘  ∙(3)\sigO \; \sigO \; \sigI \quad (3)

    A expressão (b) é uma sentença da metalinguagem que menciona a sequência (a) e conta seus símbolos: é verdadeira.

  3. ∙φ\resaltar{\sigI}\varphi

    A expressão (c) é uma sentença da metalinguagem. A letra φ\varphi não é um símbolo da linguagem-objeto, mas uma variável da metalinguagem que percorre suas sequências; a sentença é verdadeira, porque ∙φ\sigI\varphi começa, por construção, com o disco.

  4. v2=∘∘∙v_2 = \sigO\sigO\sigI

    A expressão (d) pertence à metalinguagem, mas ainda não tem valor de verdade: a sequência ∘∘∙\sigO\sigO\sigI será uma variável da linguagem do curso, e uma variável não é verdadeira nem falsa por si mesma, mas apenas quando uma atribuição, na unidade de semântica, lhe dá um valor. Na aula seguinte ela será chamada v2v_2.

Problema resolvido 4Epimênides não é o mentiroso

Numa lousa está escrita a sentença ee, talvez junto a outras: “toda sentença escrita nesta lousa é falsa”. Admitindo a bivalência e o esquema da verdade, demonstrar que ee é falsa e que na lousa há alguma outra sentença verdadeira; e deduzir que há paradoxo exatamente quando nenhuma outra sentença da lousa é verdadeira, como ocorre se ee for a única.

Solução

  1. V(e)⇔(∀x∈O) F(x)\dato{T}{V(e) \Leftrightarrow (\forall x \in O)\,F(x)}

    Seja OO o conjunto das sentenças da lousa; ee é uma delas. Pelo esquema da verdade, ee é verdadeira se e somente se todas as sentenças de OO são falsas.

  2. V(e)⇒F(e)⇒¬V(e)V(e) \Rightarrow \resaltar{F(e)} \Rightarrow \neg V(e)

    Se ee fosse verdadeira, todas as sentenças de OO seriam falsas, e ee está em OO: ee seria falsa, e pela bivalência não seria verdadeira. A suposição refuta-se a si mesma.

  3. F(e)\resaltar{F(e)}

    Portanto, ee não é verdadeira; pela bivalência, é falsa.

  4. (∃x∈O) (x≠e∧V(x))(\exists x \in O)\,\left( x \neq e \wedge V(x) \right)

    Pelo esquema da verdade, que ee seja falsa significa que nem todas as sentenças de OO são falsas: alguma é verdadeira, e não é ee, que é falsa.

  5. ¬(∃x∈O) (x≠e∧V(x))⇒V(e)∧¬V(e)\neg (\exists x \in O)\,\left( x \neq e \wedge V(x) \right) \Rightarrow \resaltar{V(e) \wedge \neg V(e)}

    Se na lousa há outra sentença verdadeira, tudo é coerente: ee é simplesmente falsa. Se, em contrapartida, nenhuma outra o é, não há nenhum xx distinto de ee em OO que seja verdadeiro, e obtém-se uma contradição, como no mentiroso; é o que ocorre, em particular, quando ee é a única sentença da lousa. Que o paradoxo apareça depende, portanto, de um fato empírico: o que há escrito na lousa.

Problema resolvido 5O heterológico

Um adjetivo é autológico se se aplica a si mesmo (“proparoxítona” é uma palavra proparoxítona; “polissílabo” é polissílabo) e heterológico se não (“monossílabo” não é monossílabo; “oxítona” não é uma palavra oxítona). Demonstrar que, se “heterológico” é um adjetivo e a relação “aplica-se a” está bem determinada para todos os adjetivos, chega-se a uma contradição; e decidir que hipótese abandonar.

Solução

  1. R(x,x)\dato{R}{R(x, x)}

    Seja DD a coleção dos adjetivos do português e R(x,y)R(x, y) a relação “o adjetivo xx aplica-se à palavra yy”. Um adjetivo xx é autológico se R(x,x)R(x, x) e heterológico se ¬R(x,x)\neg R(x, x).

  2. (∀x∈D) (R(h,x)⇔¬R(x,x))\dato{h}{(\forall x \in D)\,\left( R(h, x) \Leftrightarrow \neg R(x, x) \right)}

    Seja hh o adjetivo “heterológico”. Por sua definição, aplica-se a um adjetivo exatamente quando esse adjetivo não se aplica a si mesmo.

  3. R(h,h)⇔¬R(h,h)R(\resaltar{h}, \resaltar{h}) \Leftrightarrow \neg R(\resaltar{h}, \resaltar{h})

    Se hh é um adjetivo, está em DD, e sua condição é a do lema diagonal. Tomando x=hx = h, obtém-se a equivalência impossível.

  4. h∈D⇒h∉Dh \in D \Rightarrow \resaltar{h \notin D}

    Pelo lema diagonal, nenhum objeto de DD cumpre a condição de hh. Se hh está em DD, há contradição.

  5. h∉D\resaltar{h \notin D}

    A hipótese que falha é a segunda: “aplica-se a” não é uma relação precisa para adjetivos que, como “heterológico”, se definem por sua vez por essa mesma relação. Numa linguagem formal, a relação RR seria definida na metalinguagem, e o adjetivo hh não pertenceria à linguagem-objeto, de modo que a condição h∈Dh \in D seria falsa e não haveria contradição.

Problemas propostos

Os dois primeiros problemas exercitam a validade e a ambiguidade; o terceiro, o uso e a menção; os dois últimos pedem analisar um paradoxo novo e aplicar o lema diagonal fora da linguística. Cada um tem uma pista, que convém abrir apenas depois de tê-lo tentado.

Problema proposto 1Duas formas parecidas

Considerem-se as duas formas seguintes: (a) “se pp, então qq; não qq; portanto, não pp”; (b) “se pp, então qq; não pp; portanto, não qq”. Decidir qual é válida e qual não; para a inválida, construir um contraexemplo com enunciados sobre números, e para a válida, explicar por que nenhuma instância pode ser um contraexemplo.

Dica

Para a forma (b), procure uma implicação verdadeira entre propriedades de números, como “se nn é múltiplo de 44, é par”, e um número que não tenha a primeira propriedade, mas tenha a segunda. Para a (a), suponha que as premissas são verdadeiras e pergunte-se o que ocorreria se pp fosse verdadeira.

Resposta

A forma (a), chamada modus tollens, é válida: se as premissas são verdadeiras e pp o fosse, também o seria qq, contra a segunda premissa. A forma (b), a negação do antecedente, é inválida: “se 66 é múltiplo de 44, 66 é par; 66 não é múltiplo de 44; portanto, 66 não é par” tem premissas verdadeiras e conclusão falsa.

Problema proposto 2Passaporte, documento e visto

Um aviso diz: “para entrar é necessário passaporte ou documento de identidade e visto”. Escrever suas duas leituras com as letras pp (passaporte), dd (documento de identidade) e vv (visto), e descrever uma pessoa que uma leitura deixa entrar e a outra não.

Dica

A dúvida é se o visto acompanha apenas o documento de identidade ou qualquer um dos dois documentos. Experimente com uma pessoa que tem um único documento.

Resposta

As leituras são p∨(d∧v)p \vee (d \wedge v) e (p∨d)∧v(p \vee d) \wedge v. Uma pessoa com passaporte e sem visto pode entrar segundo a primeira e não segundo a segunda.

Problema proposto 3Aspas

Decidir se cada sentença fala da cidade ou da palavra, e se é verdadeira ou falsa: (a) “Roma tem quatro letras”; (b) “‘Roma’ tem quatro letras”; (c) “‘Roma’ é a capital da Itália”; (d) “a sentença ‘Roma é a capital da Itália’ contém a palavra ‘Roma’”.

Dica

As aspas convertem uma expressão no nome dessa expressão. Pergunte-se, em cada caso, que objeto o sujeito da sentença designa: uma cidade, uma palavra ou uma sentença.

Resposta

(a) Fala da cidade e é falsa, porque uma cidade não tem letras. (b) Fala da palavra e é verdadeira. (c) Fala da palavra e é falsa, porque uma palavra não é uma capital. (d) Fala de uma sentença e de uma palavra, e é verdadeira.

Problema proposto 4As duas faces de um cartão

Numa face de um cartão está escrita a sentença AA: “a sentença BB é verdadeira”; na outra face, a sentença BB: “a sentença AA é falsa”. Admitindo a bivalência e o esquema da verdade, demonstrar que não há maneira de atribuir valores de verdade a AA e a BB. O que ocorre se BB diz, em vez disso, “a sentença AA é verdadeira”?

Dica

Escreva o esquema da verdade para cada sentença, e encadeie as equivalências até obter uma que relacione V(A)V(A) consigo mesma. Na variante, faça o mesmo e verifique que atribuições a cumprem.

Resposta

Na primeira versão obtém-se V(A)⇔¬V(A)V(A) \Leftrightarrow \neg V(A), como no mentiroso, sem que nenhuma sentença fale de si mesma. Na variante, V(A)⇔V(B)V(A) \Leftrightarrow V(B) admite duas atribuições, ambas verdadeiras ou ambas falsas: não há contradição, mas nada decide entre elas.

Solução desenvolvida

Solução

  1. V(A)⇔V(B)\dato{A}{V(A) \Leftrightarrow V(B)}

    Pelo esquema da verdade, AA é verdadeira exatamente quando BB o é.

  2. V(B)⇔F(A)⇔¬V(A)\dato{B}{V(B) \Leftrightarrow F(A) \Leftrightarrow \neg V(A)}

    Pelo esquema da verdade, BB é verdadeira exatamente quando AA é falsa; pela bivalência, ser falsa é não ser verdadeira.

  3. V(A)⇔¬V(A)V(A) \Leftrightarrow \resaltar{\neg V(A)}

    Ao encadear ambas as equivalências, a verdade de AA equivale à sua própria negação, e raciocina-se como no mentiroso: se AA é verdadeira, não o é, e se não o é, o é.

  4. V(A)⇔V(B)⇔V(A)V(A) \Leftrightarrow V(B) \Leftrightarrow V(A)

    Na variante, o esquema da verdade para BB dá V(B)⇔V(A)V(B) \Leftrightarrow V(A), que junto com a primeira equivalência só exige que ambas tenham o mesmo valor: há duas atribuições coerentes e nenhuma contradição.

Problema proposto 5A diagonal de Cantor

Seja s1,s2,s3,…s_1, s_2, s_3, \ldots uma lista qualquer de sequências infinitas de zeros e uns, e escrevamos sx(y)s_x(y) para o termo de ordem yy da sequência sxs_x. Demonstrar, com o lema diagonal, que a sequência dd definida por d(y)=1d(y) = 1 quando sy(y)=0s_y(y) = 0, e d(y)=0d(y) = 0 quando sy(y)=1s_y(y) = 1, não figura na lista. Deduzir que nenhuma lista numerada contém todas as sequências de zeros e uns.

Dica

Tome como coleção DD os números naturais e como relação R(x,y)R(x, y) a afirmação sx(y)=1s_x(y) = 1. Que condição cumpriria um número bb tal que sb=ds_b = d?

Resposta

Se fosse d=sbd = s_b, o número bb cumpriria R(b,y)⇔¬R(y,y)R(b, y) \Leftrightarrow \neg R(y, y) para todo yy, o que o lema diagonal proíbe. Portanto dd difere de cada sbs_b pelo menos no termo de ordem bb, e nenhuma lista contém todas as sequências.

Solução desenvolvida

Solução

  1. R(x,y)⇔sx(y)=1\dato{R}{R(x, y) \Leftrightarrow s_x(y) = 1}

    Seja DD o conjunto dos números naturais e R(x,y)R(x, y) a afirmação de que o termo de ordem yy de sxs_x vale 11.

  2. d(y)=1⇔¬(sy(y)=1)\dato{d}{d(y) = 1 \Leftrightarrow \neg\left( s_y(y) = 1 \right)}

    Por sua definição, d(y)d(y) vale 11 exatamente quando sy(y)s_y(y) não vale 11.

  3. (∀y∈D) (R(b,y)⇔¬R(y,y))(\forall y \in D)\,\left( R(\resaltar{b}, y) \Leftrightarrow \neg R(y, y) \right)

    Suponhamos que dd figura na lista no lugar bb, isto é, d=sbd = s_b. Então, para todo yy, R(b,y)R(b, y) equivale a d(y)=1d(y) = 1, que equivale a ¬R(y,y)\neg R(y, y).

  4. d(b)≠sb(b)d(b) \neq s_b(b)

    Pelo lema diagonal, nenhum bb cumpre essa condição: a sequência dd não figura na lista. Concretamente, difere de sbs_b no termo de ordem bb.

  5. (∀b∈N) (d≠sb)(\forall b \in \mathbb{N})\,(d \neq s_b)

    Como a lista era qualquer, nenhuma lista numerada contém todas as sequências de zeros e uns: a cada lista falta, pelo menos, sua sequência diagonal.