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Topos Uranos

Resumo

Quem raciocina em matemática introduz e elimina conjunções e disjunções, invoca o terceiro excluído, descarta o que é contraditório, distingue casos e reduz ao absurdo, quase sempre sem perceber que o faz. Esta aula demonstra que todas essas técnicas são regras derivadas do sistema do curso, e as demonstra na forma em que são usadas: com um conjunto Γ\Gamma de premissas que permanece ao longo da dedução. Recorda primeiro que toda regra já demonstrada vale dentro de um contexto Γ\Gamma; demonstra depois a introdução e a eliminação da disjunção e da conjunção, o terceiro excluído e a não contradição, a explosão, a redução ao absurdo em suas duas formas e a prova por casos, primeiro com uma fórmula e sua negação e depois com uma disjunção qualquer. Os problemas aplicam as técnicas a leis clássicas, como a de Peirce e os dilemas, e mostram por que não basta demonstrá-las sem premissas.

Objetivos de aprendizagem

  1. Aplicar às linhas da forma Γ⊢φ\Gamma \vdash \varphi as regras e as equivalências demonstradas antes, justificando o passo com a monotonicidade e o corte.
  2. Demonstrar com premissas as regras de introdução e de eliminação da disjunção e da conjunção, desdobrando as abreviaturas oficiais só onde é lícito.
  3. Deduzir o terceiro excluído e a não contradição, e distinguir em cada passo o que é definição do que é teorema.
  4. Demonstrar a explosão, a redução ao absurdo em suas duas formas e a prova por casos com premissas, e explicar por que as versões sem premissas não bastam.
  5. Construir deduções de leis clássicas (Peirce, exportação, dilemas) combinando essas técnicas, e relacionar a dedutibilidade de uma fórmula com a inconsistência de um conjunto de premissas.

As regras dentro de um contexto

Na aula sobre sistemas dedutivos formais fixou-se o sistema de Łukasiewicz: os esquemas de axiomas A1, A2 e A3, a regra do modus ponens (MP) e a noção de dedução a partir de um conjunto Γ\Gamma de premissas, com suas primeiras propriedades: a reflexividade (Refl: se φ∈Γ\varphi \in \Gamma, então Γ⊢φ\Gamma \vdash \varphi), a monotonicidade (Mon: se Γ⊆Δ\Gamma \subseteq \Delta e Γ⊢φ\Gamma \vdash \varphi, então Δ⊢φ\Delta \vdash \varphi), o corte (Corte), o modus ponens entre deduções (se Γ⊢φ\Gamma \vdash \varphi e Γ⊢(φ→ψ)\Gamma \vdash (\varphi \rightarrow \psi), então Γ⊢ψ\Gamma \vdash \psi, que também se cita como MP), o teorema da dedução (TD: se Γ∪{φ}⊢ψ\Gamma \cup \{\varphi\} \vdash \psi, então Γ⊢(φ→ψ)\Gamma \vdash (\varphi \rightarrow \psi)) e sua recíproca (RTD). As aulas sobre as quatro técnicas de dedução e sobre as simetrias dos conectivos acrescentaram o silogismo hipotético (SH), o intercâmbio de premissas (IP), a dupla negação (DN), a contraposição (CP) em suas três formas, a substituição de equivalentes (Subst), as simetrias (Sim) e as formas equivalentes da disjunção e da conjunção. A primeira dessas aulas, depois de demonstrar a dupla negação, completou ainda o sistema do curso com uma segunda regra primitiva, a substituição da dupla negação (SDN): se χ′\chi' resulta de χ\chi ao substituir uma ocorrência de uma subfórmula θ\theta por ¬¬θ\neg\neg\theta, ou uma de ¬¬θ\neg\neg\theta por θ\theta, de χ\chi infere-se χ′\chi'. Daqui em diante, ⊢\vdash refere-se a esse sistema (A1 a A3, MP e SDN), no qual continuam valendo a reflexividade, a monotonicidade, o corte, o teorema da dedução e sua recíproca; as técnicas desta aula são regras derivadas dele, embora nenhuma de suas demonstrações invoque SDN diretamente: a regra atua por meio das formas equivalentes e da substituição de equivalentes, que a aula sobre as simetrias demonstrou com ela.

Ora, em matemática ninguém raciocina sem premissas: raciocina-se a partir de certos axiomas, das hipóteses de um teorema e do que se supôs para discutir um caso. Se isso é assim, uma técnica de raciocínio só é útil se é enunciada com um conjunto Γ\Gamma de premissas que se arrasta de linha em linha. Daí decorre que cada regra desta aula é enunciada e demonstrada para um Γ\Gamma qualquer; o caso sem premissas é o caso particular Γ=∅\Gamma = \emptyset, e não o contrário.

As demonstrações são deduções sobre deduções: cada linha afirma que algo é dedutível a partir de um conjunto, Γ⊢φ\Gamma \vdash \varphi, e sua justificativa remete a linhas anteriores. Nelas, “Premissa” marca as linhas que o enunciado da regra dá por supostas, e o nome de um axioma (A1, A3) ou de um teorema já demonstrado (como Id, o teorema ⊢(φ→φ)\vdash (\varphi \rightarrow \varphi)) marca uma linha Γ⊢φ\Gamma \vdash \varphi em que φ\varphi é uma instância desse esquema ou desse teorema, dedutível a partir de qualquer conjunto.

A aula sobre quatro técnicas de dedução demonstrou, com a monotonicidade e o corte, o lema “do resultado à regra”, que torna possível este modo de trabalhar: se {α1,…,αn}⊢β\{\alpha_{1}, \ldots, \alpha_{n}\} \vdash \beta e Γ⊢αi\Gamma \vdash \alpha_{i} para cada ii, então Γ⊢β\Gamma \vdash \beta. Com n=1n = 1, aplicado em cada sentido de uma equivalência α⊣⊢α′\alpha \dashv\vdash \alpha', diz que Γ⊢α\Gamma \vdash \alpha se e somente se Γ⊢α′\Gamma \vdash \alpha'. Portanto, toda regra já demonstrada e toda equivalência já demonstrada se aplicam às linhas de uma dedução com premissas: se uma linha diz Γ⊢(φ→ψ)\Gamma \vdash (\varphi \rightarrow \psi), a contraposição permite escrever abaixo Γ⊢(¬ψ→¬φ)\Gamma \vdash (\neg\psi \rightarrow \neg\varphi) e justificá-la com “CP” e o número da linha. Para as duas formas equivalentes da aula sobre as simetrias, que serão usadas sem cessar, escreve-se “Eq”:

(φ∨ψ)⊣⊢(¬φ→ψ)(φ∧ψ)⊣⊢¬(φ→¬ψ)(\varphi \vee \psi) \dashv\vdash (\neg\varphi \rightarrow \psi) \qquad (\varphi \wedge \psi) \dashv\vdash \neg(\varphi \rightarrow \neg\psi)

Convém insistir em que a primeira dessas equivalências não é uma definição; a segunda, como mostrou a aula sobre as simetrias, é uma identidade de cadeias, mas é citada como Eq junto com a primeira. Por definição, (φ∨ψ)(\varphi \vee \psi) é ¬(φ↓ψ)\neg(\varphi \downarrow \psi) e (¬φ→ψ)(\neg\varphi \rightarrow \psi) é (¬¬φ∨ψ)(\neg\neg\varphi \vee \psi), que são cadeias distintas; ler uma como a outra “por definição da implicação” é o erro que esta aula evita. “Def”, por outro lado, reserva-se para escrever a mesma cadeia com outro nome, como quando se lê (φ→ψ)(\varphi \rightarrow \psi) como (¬φ∨ψ)(\neg\varphi \vee \psi).